domingo, 17 de junho de 2018

Comprazendo-me com a Loucura!

 

Adoro o mês de Junho! Ao longo de toda a minha vida, este mês, felizmente, tem sido de uma enorme alegria. Não só por ser o mês do meu aniversário, do aniversário do meu casamento e das festas da minha Lisboa. Nativa de Junho, gemeniana pura, com a maioria das casas em Gémeos, segundo uma amiga que percebe do assunto, seja lá o que isso for, assim sou eu. 
Este mês anuncia a vinda do verão, a minha estação do ano preferida. Verão é divertimento, praia, folia e lazer. Embora para trás tenham ficado os verões entre amigos, divididos em sardinhadas junto ao mar e caracoladas nas esplanadas da praia, hoje o verão tem outro sabor. Embora a morar no interior, verão ainda sabe a praia sempre que quero, ou a saudade da envolvência das origens impera.
Hoje em dia, o verão é sentido como uma bela oportunidade de usufruir da família. Apesar de passarmos sempre uns tempos na Caparica e Lisboa, a maior parte da estação é passada em nossa casa. Passeios por aldeias remotas, rios, piscinas e picnics, preenchem os nossos dias.
Este ano as férias trazem consigo um novo desafio, pois decidimos ficar com o M. em casa, ao invés de o "descartarmos" num ATL. Para além de uns dias de atividades camarárias na piscina municipal, ele vai ficar connosco. Quando ele entrou para o 1.º ano, em Setembro, eu e o R., assim decidimos.
Quanto a mim, confesso que estou muito entusiasmada com a ideia, mas igualmente um tanto receosa. Quem por aqui me segue, sabe que sou uma pessoa muito metódica e organizada. Há semanas que não para de pensar num plano para nos manter ocupados durantes estes meses. O entusiasmo que sinto, advém essencialmente de estar a sentir muita necessidade de recuperar o tempo perdido destes dois últimos meses. A neurocirurgia à coluna deixou-me muito debilitada, pelo que o contacto sofreu as suas limitações. As célebres correrias para os abraços ao chegar a casa, da escola, com o Pai, tiveram de acabar, por exemplo. Tal como o costumeiro beijinho de boa-noite, pois não é possível dobrar-me para o aconchegar nos lençóis. Já para não falar na usual história para relaxar antes de ir dormir. Só há umas três semanas é que tenho conseguido deitar-me junto a ale para, os dois, a meias, lermos o enredo. Já lê comigo. Como cresceu!
Nem tudo são rosas, há muitos espinhos pelo caminho. Mas eu digo, entre a rosa e o espinho, vive o belo aroma que esta flor liberta. A vida é, para todos nós, polvilhada de desaires e amarguras. É verdade que uns são mais bafejados pela sorte do que outros. Mas é verdade também, que a sorte e o azar, como todos os conceitos, dependem da nossa apreensão. Ou seja, se nos acharmos muito azarados, sentimo-nos muito infelizes. Por seu lado, podemos achar que temos muito azar na vida e ter de lutar um pouco mais, considerando isso uma enorme sorte. E um sem número mais de perspetivas. Nesta última que enumerei eu, nesta fase da vida, incluo-me.
Não posso deixar de considerar que, ter perdido o meu Irmão em idade tão precoce, e o meu Pai aos 27 anos, que por 7 dias não teve a felicidade de me ver Mestre, foi um infortúnio. Causou-me um sofrimento atroz e obrigou-me a vivenciar experiências pelas quais ninguém devia passar. Fui caindo aqui e ali pelo caminho da vida.
À parte tudo isto e voltando ao Mês de Junho, hoje, no dia em que festejo as minha 41 primaveras, sinto um grande sabor a felicidade e libertação. Estou leve, alegre e confiante no presente e no que há de vir. Desde há alguns meses que enfrento alguns problemas pessoais, dos quais posso finalmente respirar de alívio. Mais do que qualquer outro ano, anseio veementemente a vida das férias do verão. Só penso em meter mãos à obra, fazer um levantamento de atividades possíveis, fazer planos de estudo e horários para dar aulas em casa e quantas mais ideias tiver.
Sou daquelas que acha que um problema traz mil aprendizagens. De entre as muitas coisas que aprendi nos últimos meses, umas foram mais positivas do que as outras. Fiquei a conhecer aspetos da natureza humana com os quais nunca me tinha deparado. Pior do que tudo, foi ver o menosprezo que muitos adultos nutrem pelas crianças. Por vezes verifiquei isso em adultos com responsabilidades acrescidas nessa matéria. Em termos humanos e humanitários, foi o que mais me impressionou, confesso. Para mim, uma criança só sobrevive com a proteção do adulto. É assim desde tempos imemoriais, desde que vivemos em cavernas.
Aprendi outras coisas curiosos, até caricatas, se não cómicas. A determinada altura do campeonato, devido à forma que escolhi para enfrentar o problema, aleado ao facto de se saber publicamente que sofro de perturbação bipolar (fui à TV falar sobre uma vertente do assunto), istlou-se uma espécie de histeria coletiva. A população do sítio, ao que parece, estava com muito medo de mim. Nas suas cabeças eu seria bastante perigosa. Inclusivamente, tive conhecimento, por interposta pessoa, do envio de uma enormidade de missivas dirigidas às mais diversas entidades, referindo a minha doença. Penso tratarem-se de uma espécie de denúncia por crime de doença bipolar. Como se isto não fosse cómico o bastante, as cartas eram anónimas. No fundo até percebo que os autores deste tipo de baboseiras não queiram assumir a autoria da sua própria ignorância.
Pela vida fora, aprendi a viver com a doença bipolar. Não gosto de ter esta doença, tal como não gosto de ter os outros problemas de saúde que tenho. Ninguém gosta. Reconheço que as doenças psiquiatras têm uma especificidade singular. Quer do ponto de vista do paciente, quer da sociedade. A ciência é simples: Perceber a doença, encará-la de frente, assumi-la, e tentar não permitir que a ignorância social nos derrube. Se partiu um braço é coitado, se é bipolar é louco. Felizmente, por força de caráter ou lá o que for, o que pensam ou dizem é para deitar no lixo. Não é sequer admissível culpabilizar quem quer que seja por ter nascido desta ou daquela maneira.
Abracei a docência pelo gosto de ensinar, pelo amor ao conhecimento. Se na maioria das vezes a ignorância me entristece, neste caso, não posso deixar de comprazer-me com loucura...

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Por cá, 2018 ainda não chegou...


Como é sabido, mudei-me para uma quinta no Interior de Portugal, embora tenha nascido e crescido na Capital. Foi por lá que construí sólidas amizades, que me diverti muito em altura própria, que fiz o meu percurso académico e profissional, que encontrei o meu amor, que casei e que tive o meu Filho.
Mudei-me de armas e bagagens de um ambiente urbano para um muito rural, por causa das paisagens e acalmia circundantes. Trocando as paisagens de betão, pelas vistas verdejantes, a minha Família encontrou um mundo novo para explorar. Aos poucos, fomos aprendendo a tirar proveito de um estilo de vida novo.
As solicitações consumistas, ao fim de alguns anos, deixaram de fazer falta. Os dias agitados, em que se calcorreavam as escadas do Metropolitano ou as horas de ponta em que, agarrada ao volante, não podia olhar para o lado, ficaram para trás.
Como me afastei da vida laboral, longe vão os tempos em que me dividia a dar aulas entre a escola e a universidade. Apesar de choruda, a maquia trazida ao fim do mês, nunca será suficiente para pagar o tempo que tenho estado com o meu Filho.
Não deixa de ser irónico o facto de ter acabado por escolher este modo de vida, tendo em conta que, há muitos anos, idealizava o oposto. Eu era o protótipo da rapariga urbana bem instalada na vida. Tinha planos profissionais e académicos em mente. Lutei por realizá-los. Pelo caminho calcorreei cidades um pouco por todo o mundo. Conheci de perto a diversão noturna da minha Lisboa. Os meus dias eram longos e preenchidos. Havia lugar para desporto, aulas na faculdade, voluntariado e muitas festas.
As baterias eram carregadas na Costa da Caparica, onde tinha um grupo de amigas e amigos para a coboiada. Apesar de nunca ter sido fã do bronze, sempre adorei serpentear por entre as ondas do mar. Cheguei a instalar-me no areal, debaixo do guarda-sol, durante tardes inteiras, em que intercalava a correção de provas globais com relaxantes braçadas no mar. Foi também junto ao cheiro a maresia que durante horas e horas esquecidas me preparei para exames ou escrevi capítulos da minha dissertação.
Na infância, como em todas as infâncias, tive a Vó Lu que me contava histórias. Ela própria, uma avó da urbe, licenciada pela Universidade de Coimbra, professora liceal, escritora de dezenas e dezenas de manuais didáticos, era uma mulher dotada de uma enorme cultura. Antes de iniciar a narrativa, fazia-me sempre a mesma pergunta: queres uma história a fingir ou uma verdadeira? Eu queria sempre a verdadeira. Recordo-me de ouvir sempre fascinada os pormenores dos seus relatos expressivos e empolgantes. É possível que dela tenha herdado os genes das humanidades.
Já que de avós falamos, aproveito para dizer que a minha bisavó Laura era divorciada. A minha Avó, apesar de já ter mandado o meu Avó passear há muitos mais anos, só conseguiu divorciar-se oficialmente quando o Estado Novo caiu. Não havia pensão de alimentos para ninguém! Teve de se virar sozinha.
A minha Mãe casou uns 15 dias antes do meu Irmão nascer, numa conservatória em Pinhel, onde o meu Pai estava destacado como engenheiro militar. 
A minha Mãe estudou nas Belas-Artes de Lisboa, fez-se professora, tirou o Mestrado em Ciências da Educação, tendo coordenado o seu departamento durante os últimos quinze anos no activo. 
Sempre a conheci como uma mulher de armas, destemida e forte. Tenho aprendido muito com ela ao longo da vida. Dado que o meu Irmão faleceu e uns anos depois o meu Pai também, eu e ela ficámos sozinhas. Penso que a partir de então selámos uma aliança muitíssimo especial. Estabelecemos uma importante "parceria" na forma como enfrentamos a vida e nos inter-ajudamos. É raro vê-la fraquejar. Comoveu-me quando eu estava deitada numa maca, prestes a ser levada para o bloco operatório para a neurocirurgia à coluna, ouvi-la sussurar-me ao ouvido e a chorar: Lembra-te disto minha Filha: Aconteça o que acontecer, não haverá no mundo quem te ame mais do que eu! 
Sempre fui muito chegada ao meu Pai. Tenho uma enorme admiração e afecto por ele. Na verdade, tive nele um incondicional amigo, um excelente protector e também uma boa companhia em momentos divertidos. 
Jamais esquecerei as Galas a que íamos sempre juntos porque a minha Mãe não tinha paciência para isso, indo eu em sua representação. Ele sempre com o seu smoking e eu empiriquitada com roupa, normalmente, preta e prateada, enfeitada com as jóias maternas, que só invadiam os meus dedos naqueles dias festivos. 
Preencherá para sempre a minha memória a lembrança das viagens que fizemos pelas cidades, vilas e aldeias deste nosso Portugal. De máquina fotográfica em riste, registei imagens de ruínas celtas e romanas, de muralhas medievais, igrejas e palacetes. Fazíamos uma espécie de passeios temáticos: castelos, praias, Alentejo, Beiras, etc.. Contam-se igualmente as idas anuais ao Porto para comprar roupas giras, num tempo em que havia poucos shopings. 
Não sou velha, nem nova. Não se pode dizer que tenha pouca experiência de vida. Já estudei muito, li e escrevi bastante. Quando não sei, não invento ou digo que sei, mas procuro saber. À excepção daquilo que possa acontecer às pessoas que eu amo, nada nem ninguém me mete medo. 
Este ano lectivo, ao saber que o meu Filho estava a ser vítima de bullyng na escola, tive de agir no sentido de travar as agressões. Como o concelho em que resido é pouco mais do que uma aldeia, cristalizada nos tempos medievais, tive de enfrentar muitos ódios e dificuldades. Não sou de lá e nas cabeças medíocres dos ali nascidos e criados, não havia problema em o M. ser constantemente agredido. O verdadeiro incómodo foi uma forasteira mexer com os poderzinhos instalados "obrigando" a escola a fazer o que lhe é devido, através de uma inspecção. 
É óbvio que não posso generalizar à escala nacional, mas, tirando honrosas excepções, os campesinos desta terra funcionam à boa maneira feudal. Arbitrariedade, autoritarismo, clientelismo e caciquismo por cá, são um modo de vida. A democracia manifesta-se apenas e só, no dia das eleições. Quem vem de outras cidades é tratado de forma negativamente diferenciada. O que leva estas gentes a tão grande xenofobia quando não passam de um povo de emigrantes, cujas aldeias se invadem de "avecs" no rico mês de Agosto, é algo que, do ponto de vista sociológico, me intriga bastante. 
Ainda assim não me arrependo nem por um segundo ter rumado da urbe ao campo para aí criar raízes. As saudades da minha terra e da minha gente colmatam-se com 300 km de comboio ou carro. Sempre que quero ou preciso, vou respirar um arzinho de actualidade e mentes arejadas à Capital. 
As gentes campesinas daqui, na sua maioria, pouco ou nada me interessam. Como costumo dizer: Já tenho 40 anos e não vim cá para fazer amigos. Tenho muitos e bons na minha terra. Do que eu realmente gosto é da vida que encontrei na Serra. Possuir um pequeno pinhal onde se aloja a minha casinha de granito, mais um grande pedaço de terra onde posso cuidar da minha horta, enche-me as medidas. Enquanto o miúdo está na escola atarefo-me com os meus afazeres no mais repleto silêncio. Em frente à janela, a escrever ao computador, posso ter o prazer de passear os olhos pela montanha verdejante que se estende à minha frente.
Neste caso muito concreto e, quanto a mim, não são as pessoas que fazem o sítio. Na verdade, estas são as ervas daninhas que insistem, sem sucesso, em estragar as belas paisagens e qualidades da vida no campo.
Não é mito. Há locais parados em tempos, há muito, idos, em pleno século XXI. Sim, por cá, 2018 ainda não chegou... 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Enquanto eu acreditar, acontecerá


 
Há coisa de nove meses, que não aparecia por aqui. O canto não ficou esquecido, mas temporariamente abandonado. Por vezes é preciso reformular a vida. Há abanões que levamos que têm o condão de nos acenar com a felicidade de uma vida simples, humana, sincera e, porque não, sempre igual.
Eu, que há muito me sentia feliz comigo, com a minha alma e o meu corpo, dei por mim a descer um poço fundo, lamacento e horripilante. Mas a verdade é que, mesmo no fundo de um poço, quando se ergue a cabeça, é possível ver a luz do sol.
Os últimos nove meses reservaram-me dificuldades, grandes desafios, aborrecimento, cansaço e problemas de saúde que me derrubaram. Há cerca de um mês fui submetida a uma neurocirurgia complexa e profunda à coluna. Passados uns dias sem me conseguir mexer, comecei a dar uns passos. À saída do hospital, já era dona de um andar vacilante e hesitante. Nas primeiras semanas, senti-me um copo de cristal, prestes a desfazer-se. Embora a saúde, no passado, já me tivesse falhado severamente, nunca eu me tinha sentido tão frágil.
A minha Mãe veio passar uma temporada connosco para deitar a mão. Com um miúdo pequeno e o Marido a trabalhar, não é fácil. Apesar de, ao início, precisar de ajuda para tomar banho, vestir-me, descer escadas e afins, aos poucos as coisas foram regressando ao lugar. Hoje, já faço pequenos cozinhados, arrumo roupa, faço caminhadas um pouco maiores. Ainda não conduzo e não me visto completamente sozinha. Tenho de andar com uma cinta com barras de metal para não me sentir uma gelatina prestes a desfazer-se.
As dores são outra conversa. Nunca na vida eu pensei que as pudesse suportar a este nível. Apesar de estar com analgésicos fortes, elas cansam a minha cabeça. Apanhei uma infeção pós-operatória e já vou na sexta caixa de antibiótico.
Isto está a parecer conversa de sala de espera de Centro de Saúde, mas tem um propósito. Com todas estas dificuldades físicas inerentes ao pós-operatório, não foi difícil perceber quão boa era a minha vida. É certo que o problema que me levou à necessidade da intervenção cirúrgica não me estava a ajudar. Agora, contudo, tenho a consciência que a curva é ascendente. As coisas vão melhorar. Foi-me oferecida uma segunda vida, e eu vou aproveitá-la ao máximo.
Faço grandes planos para o futuro. Adivinho dias vindouros cheios de alegria, novas experiências, consolidação de laços e muitos e muitos planos de diversão em família. Já aqui tenho dito muitas vezes, não há coisa que seja mais importante para mim do que a família. Quanto à que eu constituí, sou a matrona típica. Levo esta casa para a frente, trato, cuido, organizo, mando e desmando. Canto e danço ao som da música pimba da rádio local, enquanto mexo a panela e o miúdo se ri, ou me diz que danço mal e ele é que sabe como é.
A vida vai voltar a sorrir-me. Tenho a certeza disso. Há momentos da vida que não são fáceis. A par das dificuldades do pós-operatório, enfrento problemas graves que não me estão a deixar recuperar merecidamente. Mas enquanto eu acreditar que a tempestade passará, que eu não baixarei os braços face às adversidades, eu terei forças para fazer chegar o barco à Terra Prometida!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O mundo através das grades da ala psiquiátrica


Após um internamento de quarenta e quatro dias no Departamento de psiquiatria e saúde Mental do Hospital da zona, cheguei a casa há, precisamente, duas semanas.
A 20 de Julho, metida numa ambulância e muito perturbada mentalmente, guardo fraca memória da minha chegada ao Hospital. Reservo como recordação um banho de chuveiro, após o qual enfiei um pijama da instituição. Devo ter comido qualquer coisa, pois perguntaram-me se estava com fome e acho que me resignei com um par de bolachas e um copo de leite. Seria meio-dia quando a minha Médica de Família chamou uma ambulância para me levar ao Hospital, deviam ser umas dez da noite quando dei entrada no internamento.
Não me lembro se dormi mal ou bem. Nos primeiros dias senti-me uma zombie deambulando pelo corredor ou deitando-me na cama onde me entregava a muitas horas de sono.
Devagar lá me fui endireitando. Não se pode falar de uma recuperação linear, pelo contrário, foi uma recuperação lenta. Fiz muitas análises, o médico foi ajustando as dosagens dos medicamentos e, finalmente, pude vislumbrar um pouco de luz.

Aos poucos, fui conhecendo o lugar e as pessoas. Vi umas entrar e sair e outras a quem só disse adeus na hora de deixar o internamento. No último dia, eu era a "cliente" mais antiga.

A par da crise em si, outras inquietações perturbavam a minha mente. Com o meu Filho em vias de entrar para o 1.º ano de escolaridade, ao longo dos quarenta e quatro dias, temi não conseguir assistir a tão importante momento.

O internamento psiquiátrico é o lugar onde se entra em estado de extrema confusão mental, de onde se julga nunca mais voltar para casa com a mente refeita. Quando o abismo em que se caiu provoca tão drásticas medidas (internar a pessoa), não nos é possível crer que um dia as coisas voltarão ao normal, que a vida voltará a cair nas mesmas rotinas azafamadas, que a minha capacidade para me amar e estimar voltará.

Neste caso em particular, pois não foi o primeiro internamento prolongado a que estive sujeita, entrei em estado depressivo agudo e ligeiramente psicótico. Com as faculdades cognitivas imensamente reduzidas, é natural que tenha perdido, lá dentro, a esperança de as recuperar, naquele lugar onde a fragilidade que nos cerca nos devora a autoestima. 

Do lugar de onde, do seu interior, as grades do internamento da psiquiatria parecem enormes e se olham no horizonte as montanhas da Serra a perder de vista, julguei irremediavelmente ter perdido o amor à minha vida.
Estranho pensamento, este, a de uma mãe! Tal o fosso que criei em relação à Família, que julguei não voltar a amá-la como até então. A doença pareceu ter invadido o meu corpo de tal forma que se terá apoderado dos meus sentimentos mais profundos. Mil vezes se assomou à minha cabeça a dúvida de como poderia eu algum dia voltar a ser quem tinham sido. De como poderia ser novamente capaz de tomar as rédeas da minha vida. Mil vezes me culpei por privar o meu Filho da minha companhia, embora acreditasse com todas as minhas forças que ter uma mãe mentalmente perturbada, irremediavelmente perturbada, não lhe serviria de nada.

Dormi horas esquecidas, inúmeras vezes sem ter vontade de ver ninguém, embora me reconfortasse a presença do R. ou da minha Mãe nas horas das visitas. Não era raro dormir enquanto eles, pobres coitados, olhavam para o ar! Embora isso me fizesse sentir um traste, era bom sentir o amor que emanava da sua comparência assídua, o que era reforçado pelo esforço feito pela minha Mãe, por estar deslocada cerca de 300km da sua casa.

Fui autorizada a estar na presença do meu Filho e do R. durante cerca de 20 minutos do lado de fora das portas do internamento. Das vezes em que isso aconteceu, no final das visitas, ficava exausta e até um pouco aliviada por poder ir para a cama. Tal facto fazia-me sentir bastante mal, mas a verdade é que não conseguia evitar o cansaço que me assolava.

Numa estadia hospitalar as rotinas são rigorosas, o internamento psiquiátrico não constitui exceção. Por vezes fui forçada a desempenhar algumas rotinas básicas do dia-a-dia, como comer ou tomar banho. Em estados depressivos profundos é-se capaz de ficar o dia inteiro a dormir. Não querendo falar pelos outos, no meu caso, faço-o porque sinto muitas dores no corpo, falta de forças e sono (penso que seja uma reação de defesa do corpo). Por este motivo os meus primeiros tempos deste internamento foram passados em grande parte a dormir. Comunicar com as pessoas que me rodeavam (profissionais de saúde e pacientes) foi um mal necessário, reduzindo-se ao indispensável. Excetuando os médicos, como os quais tinha ânsia de falar, na esperança de me retirarem do torpor que me enleava, os diálogos eram escassos. A Elsa sorridente, brincalhona e comunicativa estava adormecida (mas na altura, julgada morta para sempre). Houve alturas em que penso até, ter sido rude para algumas pessoas.
Refugiada na cama que me destinaram, lacrimejei a jorros, odiei-me, alucinei e senti muitas saudades de uma vida que julguei perdida.

À medida que reaprendi a comunicar, fui conhecendo outras mentes perturbadas que, como eu, devem viver vidas de sofrimento e incompreensão. A vantagem de se passar aqui uma "estadia" é que deve ser dos poucos lugares onde nos consideram doentes "normais". Somos tratados com toda a normalidade, o que cessa quando, à saída, os rostos se voltam para ver quem sai do internamento da psiquiatria!

As semanas foram-se sucedendo, tal como as consultas de psiquiatria, as análises, os ajustes medicamentosos, as monitorizações e as pesagens. Como qualquer paciente de qualquer outro departamento, também eu vivi melhorias e retrocessos. Mais uma vez a perturbação bipolar se revelou bastante ameaçadora do meu equilíbrio emocional. Os ciclos rápidos que me caracterizam foram, por certo, foco de algum cuidado na hora da escolha da terapêutica adequada.

Seria mentira se dissesse que estou como nova. É certo que quando me foi dada a alta, estava na altura de seguir o meu caminho nesta estrada insegura que é a da vida. Há duas semanas que me encontro em casa a reorganizar-me. Não tem sido um processo fácil, tendo em conta que o meu pequeno M. ingressou no 1.º ano. Ainda sinto algumas dificuldades e a minha saúde mental ainda não se encontra restabelecida, pese embora as limitações da minha perturbação psiquiátrica.

E é nestas breves palavras que resumo estes quarenta e quatro dias em que olhei lá para fora através das grades da ala psiquiátrica...

domingo, 16 de julho de 2017

A Depressão vista por mim


Se fosse poeta, diria que depressão é fogo que arde sem se ver e nos consome o corpo, nos devora lentamente e lega-nos para um plano mais parecido com a morte do que com a vida. Mas como não sou nem poeta, muito menos de renome, resta-me exprimir aquilo que sinto quando sou assolada por uma enorme depressão que me deita por terra, me deixa completamente inoperacional, me sacode o corpo em vómitos compulsivos e não me permite tratar e cuidar da família.
É muito duro sofrer uma depressão, principalmente tratando-se de uma maleita que não se vê e que a sociedade constantemente desvaloriza. Ou me tomam por maluquinha ou me tomam por preguiçosa. Posso asseverar que não sou nem uma coisa nem outra.
Triste mesmo é saber que tudo o que faço, faço por objetivos que traço para mim própria, e que nestas alturas tudo deixa de fazer sentido, tudo é esquecido e todo o trabalho empreendido até então, se esvai num ápice.
Gosto, por exemplo de planificar as minhas semanas, elaborar os menus da família, estabelecer uma agenda, etc., mas nestas alturas o dia de amanhã é feito de improviso, à pressa e no desenrasca! E como odeio isso!
Ensombra-me o facto de já ter nascido assim, mais me ensombra estar sempre em contacto com o meu psiquiatra que recentemente me disse que o meu problema da bipolaridade está cada vez pior. Se até agora a minha vida apesar de feliz quando estou saudável, tem sido complicada, anteveêm-se dias mais sombrios.
Resta-me a consolação de ter um grande suporte familiar, uma Mãe sempre pronta a ajudar quando fico de cama por dias infindos e um Marido que tem uma paciência de Jó para os meus humores instáveis e que deita a mão quando a coisa está demasiado "preta"!
E, como dizem os brasileiros "Depressão não é frescura!", é uma doença grave, altamente incapacitante, não é preguiça é falta de força no corpo, não é capricho, é má disposição física, são dores no corpo, é sonolência, já para não falar de uma grande baixa autoestima e em casos extremos de uma enorme vontade de dar um tiro na cabeça!!

domingo, 9 de julho de 2017

Estou cansada


Nestas últimas semanas de vida da minha Vó Lu, dei tudo de mim. Todas as minhas forças foram sugadas culminando numa morte trágica que me deitou por terra, por ter sentido a impotência de não me ter mexido a tempo de lhe trazer dignidade aos seu últimos meses de vida. Mas não me posso culpar eternamente por algo que não fiz, por algo que não me passou pela cabeça que estivesse a ser feito.
Como não sou pessoa de me render às primeiras respostas que me surgem, sinto que começou uma luta amarga, difícil de ganhar. Mas uma  coisa é certa, culpada serei eu se não tentar repor alguma justiça nesta história e chamar à responsabilidade pessoas cujos atos foram negligentes já para não mencionar criminosos!
Como em tudo o que faço, envolvi-me bastante, até demais. Não sou daquelas pessoas capazes de me distanciar das coisas que faço. Isto é, naturalmente uma autocrítica. Já tenho tido muitos dissabores por ser assim. Já fiquei inúmeras vezes doente por me esgotar com todas as minhas energias numa causa. Quando caio no vazio ou quando as coisas me esgotam em demasia, caio doente numa cama.
A minha Mãe disse-me certo dia, e com razão, que eu não me sei distanciar dos problemas do dia-a-dia. A verdade é que sempre me considerei uma inadaptada para o mundo. Quando era mais jovem, incapaz de lidar com os problemas da vida, refugiava-me no álcool onde encontrei uma efémera felicidade, diverti-me fugazmente, intercalando tamanha felicidade com profundas depressões que me empurravam para a cama por dias infindos, de onde nem sequer saía para comer.
Nestas fases depressivas a vida deixava de fazer sentido, tendo por vezes tentado o suicídio sem sucesso, esperando simplesmente que a morte me levasse, sentido uma enorme desilusão ao acordar de misturas explosivas que fazia com álcool e medicação. Apenas uma vez, com muita pena minha na altura, fui salva pelo INEM.
A avaliar pelo que tenho sofrido com esta maldita doença, na altura roguei pragas a todos quantos me tentaram salvar a vida. Foram fases mais difíceis nume altura em que o diagnóstico estava a ser trabalhado e a medicação a tentar ser ajustada ao meu organismo.
Hoje, felizmente, confesso-me uma mulher feliz, com um casamento feliz, um Filho resplandecente de saúde e meiguinho, boas relações familiares e filiais, mas infelizmente doente.
Por muito que queira gritar ao mundo que a vida me corre de feição, que sou feliz, que moro onde quero morar, etc. e tal., não me posso confessar feliz com a maleita que tenho que me assola por terra, que me dilacera o corpo e me dá dores por todas as minhas entranhas, que me retira temporariamente a vontade de viver, que me põe a ver e a ouvir coisas que não existem e a questionar se vale a pena cá andar!
E é assim a vida ambígua de uma Bipolar que apesar de aceitar a doença, dava tudo para a não ter!

terça-feira, 4 de julho de 2017

Que feliz que eu sou!



Acabei de perder um ente numa morte trágica. Não conheci nada de novo, não foi nada que já não tivesse ocorrido na minha vida. Digo, por vezes em tom de brincadeira, que já trato a morte por tu.
Chorei ao ver a minha Mãe atirar as cinzas do meu Irmão ao mar. Chorei ao atirar as cinzas do meu Pai ao mar. E agora, sinto uma enorme responsabilidade com o fim a dar às cinzas da minha Avó. Mais uma vez, estou encarregue de fazer cumprir um último desejo. Ela adorava flores, árvores e afins. Ficará bem, mesclada com a natureza, numa cidade que ela amou com todas as suas forças.
Os encontros fortuitos que vou tendo com a morte, reavivam em mim memórias dolorosas, bem como despertam pensamentos metafísicos, nos quais equaciono milhares de coisas e acabo sempre por concluir acerca do quão frágeis são as nossas existências.
A verdade é que temo a morte com todas as minhas forças, não que ela bata à minha porta, mas que bata à porta de quem mais amo e me prive da sua companhia. Queria ter tido mais filhos, pois vivo ensombrada pela ideia de perder o meu. É algo que me transcende, que é irracional, mas que eu não consigo evitar.
Hoje, quando tive de deixar pela primeira vez o M. com pouca supervisão, tive um ataque de ansiedade como nunca tinha tido na vida. Toda eu tremia e estava encharcada em suores frios. Naquele momento considerei-me a pior mãe do mundo por tê-lo deixado ir. Vim para casa, deitei-me e chorei, tremi e suei, até que me deixei levar pelo  melhor antídoto que conheço, o sono.
Os contactos com a morte que vou tendo, avivam medos e acordam fantasmas em mim. Sou muito ansiosa, confesso, tenho medo, muito medo que a Morte desate a ceifar todas as vidas à minha volta e me deixe só. Há muito que digo que quero que ela me leve cedo, que não me deixe viver muitos anos. Só aspiro a deixar o meu menino criado e orientado. Se há uns anos, pouco me agarrava à vida, hoje, a semente que cá deixei ensinou-me a amá-la.
Conheço e compreendo a efemeridade da existência humana, já para não mencionar a sua fragilidade. É esta apreensão da vida que me leva a gostar tanto dela. A vida eterna deve ser aborrecida. A garantia da nossa vitalidade dificilmente nos daria motivação para fazer mais e melhor. É este sentir da sua efemeridade que me permite amar a vida com tanta intensidade. Se há uns anos brigava com as pessoas que me rodeavam, faziam beicinhos e chegava mesmo a amuar, qual criança mimada, tal se deveu, sem dúvida, à fraca consciência que tinha da minha própria fragilidade.
Se tenho um casamento feliz, boas relações familiares e sólidas amizades a esta consciência da vida o devo. Para mim nunca é demais pensar que, como tudo se esvai num ápice, o melhor é cultivar, regar e tratar tudo o que a vida nos oferece.
Tenho fraca saúde, mas isso não me demove de viver a vida. Quando olho para o M., resplandecente de saúde, a brincar na terra, a fazer construções de paus e pedras no seu mundo imaginário, só me cabe um dever: o de ser feliz!
Assim, e não querendo maçar por um discurso que não sendo, acaba por ter contornos meio mórbidos, tal a morbidez da minha cabeça ao momento, resta-me dizer que gosto da vida, que quando a doença não me bate à porta, amo-a com todas as minhas entranhas. E porque só assim sou capaz de amar Filho, Marido, restante família e amigos, não posso deixar de gritar ao mundo - Que feliz que eu sou!